Blog

23 anos de “vida que segue”

4 de agosto de 2015 - Por:

Com 54 anos, Sirley Terezinha Santos luta há tempos contra o câncer. Se depender dela, a vida vai longe

Sirley Terezinha Santos, 54 anos, mãe de três filhos, é uma guerreira e no sentido mais literal que a palavra possa ter. Entre idas e vindas da doença, são 23 anos de luta contra o câncer – os últimos amenizados pela associação da quimioterapia oral com medicamentos hormonais.

A doença apareceu primeiro no seio esquerdo, em 1992, numa consulta de rotina no ginecologista. “Meu filho mais novo era bebê, tinha cerca de um ano e tinha acabado de desmamar. Fui ao médico para ver como eu estava e, no exame clínico, de toque, ele sentiu um caroço”.

Era uma quarta-feira. O médico, que também era amigo de Sirley, marcou uma consulta para ela com um oncologista para a sexta-feira. “Quando cheguei à clínica havia algumas senhoras carecas, outras mulheres mais jovens. O clima era pesado. Fui chamada para a consulta e o médico disse que eu precisava fazer um exame. Quando me dei conta, ele já tinha perfurado o meu seio com uma agulha e colhido material”.

Sirley voltou na quarta-feira seguinte e teve a notícia: era câncer. “Ele me disse que viajaria em breve e que poderia me operar até sábado. Foi tudo muito rápido. Eu concordei com tudo, mas eu não estava entendendo nada. Saí de lá atordoada.”

Como previsto, ela fez a cirurgia no sábado – um quarto do seio esquerdo foi retirado, além de outras partes próximas da axila. “Com mais seis sessões de quimioterapia e 30 de radioterapia eu terminei o tratamento. Foi difícil, mas na época eu tinha plano de saúde. Cinco anos tomando remédio preventivo e, como dizem, ‘vida que segue’”

O câncer deu sinais de novo cinco anos depois. Começou lentamente como uma dor nas costas. “Todos os dias, quando chegava em casa, o meu porteiro, Seu Caetano, me alertava que eu estava ‘torta’. Ele tinha razão. Eu estava torta e com o braço esquerdo que mais parecia uma tromba. Mas estava sem plano de saúde e a empresa em que eu trabalhava, como representante de seguros, estava mal das pernas.”

Entre as primeiras tentativas para marcar a primeira consulta na unidade de saúde até passar por erros de diagnóstico – que chegaram a indicar até esclerose múltipla –, foi um ano e meio com dores terríveis e incógnitas. “Foi só depois que meu ex-marido resolveu retomar o plano de saúde para mim, depois do meu filho brigar com ele, é que eu consegui fazer novos exames. Por conselho de uma amiga, mudei de laboratório já que os exames anteriores não mostravam nada.”

Na outra semana Sirley foi buscar o resultado e espiou o documento. Lá estava “metástase de câncer no plexo braquial esquerdo”. O tumor estava no conjunto de raízes nervosas que saem da medula em direção ao pescoço e que dão movimento aos membros superiores. “Eu me revoltei. O que eu tinha feito para Deus para passar por tudo aquilo de novo.”

Sirley voltou, ainda abalada, ao consultório do neurologista que a tinha diagnosticado com esclerose para mostrar os exames. “Ele disse que bom que é câncer. Como assim? Alô? Mas, é claro, ele disse aquilo em comparação com o diagnóstico que ele tinha dado, de esclerose.” Cerca de uma hora depois, no ponto de ônibus, Sirley se deu conta de que o médico tinha razão. “Ele tinha me dado uma sentença de morte e, agora, me dizia que era câncer e que havia uma saída. Vida que segue”.

O terceiro ataque do câncer veio em 2010, na Itália. Anos antes, Sirley tinha ido passar um tempo com parentes e amigos lá e, após se encantar com Verona, acabou ficando. Ela começou a sentir fortes dores nas costas e foi parar duas vezes no pronto-socorro. “No segundo plantão, dei sorte de pegar um médico apaixonado pelo Brasil. Contei todo o meu histórico e ele chamou o oncologista. Fiz exames. Era uma sexta-feira. Na segunda-feira eu retornei e antes mesmo de chegar ao hospital liguei avisando que estava mal. Fui internada de imediato.”

Após uma tomografia completa, três lesões foram encontradas, no fêmur, na região cervical e no crânio. Era câncer, de novo. Sirley se desesperou porque temia que tivesse de pagar pelo tratamento ou mesmo tivesse de voltar para o Brasil. “Mas foi tudo ótimo. Recebi uma carteirinha e todo o meu tratamento foi gratuito. Por experiência própria, aprendi que o atendimento aos doentes crônicos na Itália é muito bom.”

Entre 2011 e 2013, Sirley ainda passou por dois outros sustos, decorrentes do seu histórico. Ficou em coma por dez dias por causa de uma infecção intestinal e, dois anos depois, teve sérias complicações no esôfago que a fez emagrecer 20 quilos.

Voluntária do Instituto Humanista de Desenvolvimento Social – Humsol, Sirley leva a sua história a várias pessoas todos os anos e no próximo mês de setembro espera dar uma guinada: fará a reconstrução da mama operada em 1992. “Por que não, não é? Só espero estar inteira para outubro [mês de prevenção do câncer de mama] e novembro [mês de prevenção do câncer de próstata] para poder contar a minha história.”

Matéria produzida pela Gazeta do Povo

 

Comentários

Comentários

Leave a Reply